CRÓNICAS

     
 

Busca Pela Ironia Da Sociedade
 

Pimba: Uma Espécie Em Expansão…

  (Falta De) Estilo
  A (I)Maturidade
  Aborto: As Minhas Razões Ao Não
  O Culto Da Mediocridade
  O Jovem, A Sociedade E A Igreja
     

 

 

 

BUSCA PELA IRONIA DA SOCIEDADE

           

Esta nossa sociedade é feita de ironias… Quão irónica é a nossa existência , quando desprovida de objectivos, causas em que acreditar.  Por um lado, preenchemos  a nossa vida com actividades superficiais, que, aparentemente nos dão prazer; por outro lado questionamo-nos com perguntas e dúvidas existenciais, tentando justificar a nossa existência, onde não existe justificação possível…

 Poucos são aqueles que realmente encontraram o sentido da vida, e que, perdoem-me a redundância, realmente vivem. Assim, numa busca incessante da minha felicidade, decidi parar um pouco para reflectir, analisando a sociedade que nos rodeia.

 Depois de momentos infindáveis de reflexão, cheguei à seguinte conclusão: é preciso ter coragem para viver neste mundo. Contudo, o mais comum dos mortais consegue existir…

Esta nossa sociedade é caracterizada por um grupo de padrões institucionalizados, que todos aceitam sem levantar qualquer resistência… A sociedade define o normal, alienando o diferente. Assim, o objectivo de toda a gente é ser o mais normal possível, igual a todos os outros, partilhando os mesmos gostos, opiniões e “ideais”. E aqueles que por ignorância ou por instinto, tentam ser diferentes, são considerados anormais, marginais.

Tão justo é o sistema político onde nós vivemos, a democracia: basta que uma maioria partilhe uma opinião para que a opinião dos restantes seja desprezada. Somos governados por uma imensa minoria, que, como humanos que são, apenas querem enriquecer os seus… E há que aproveitar, pois quatro anos não é assim tanto tempo…

Por um lado, casas enormes, luxos; por outro pobreza, miséria…Por um lado, alimentos desperdiçados numa sociedade de consumo; por outro fome nos países ditos subdesenvolvidos, onde não resta lugar para a dignidade humana.

 Por um lado, animais de raça pavoneando-se em desfiles (não, não me estou a referir às modelos); por outro, animais abandonados a serem abatidos.

Vivemos numa sociedade de contrastes, sendo pura ilusão pensar que somos todos iguais. Somos iguais no nosso meio, ou seja, os ricos pensam todos da mesma maneira, e os pobres pensam apenas em sobreviver, pois não lhes resta tempo par mais nada.

O Homem tenta, no geral, caminhar para a civilização, desprezando os instintos, afastando-se dos outros animais. Isso justifica os vícios, os adornos corporais e a própria maneira de pensar.

Porém, ao tentar ser civilizado, o Homem homogeneíza-se, desenvolvendo a sua maneira de pensar em função dos outros. Assim, é “porreiro” vestir roupas de marca porque todos vestem, ouvir a música que os outros ouvem, ir aos sítios onde os outros vão, comer o que os outros comem… Aplica-se aqui a analogia do “rebanho”. Num rebanho as ovelhas são quase todas iguais, fazem todas a mesma coisa, comem todas o mesmo pasto. Também num rebanho existem as ovelhas negras, que sobressaem por serem diferentes.

O Homem é e sempre foi assim. Despreza as pessoas de cor diferente, de religião diferente, de opiniões diferentes, considerando-as inferiores. Desiludam-se aqueles que pensam que são diferentes, pois a sociedade é como o reumático: entranha-se nos ossos e nunca mais sai.

É difícil desenvolver objectivos próprios, maneira de pensar própria. Contudo, existem factores que facilitam essa caminhada: uma causa por que lutar ( em que realmente se acredite), um verdadeiro amor…

Contudo, isso é difícil, pois nesta sociedade desenvolve-se um estigma de aparências, ou seja, o que conta em primeiro é a aparência, e o resto vem depois…

Assim, partindo do princípio que sou igual a tantos outros, continuarei esta busca incessante pela verdadeira razão da minha vida, a resposta às eternas questões: “Quem sou eu?”, “O que faço eu aqui?”.

Por enquanto, apenas existo pelos meandros desta nossa sociedade; espero um dia viver, e dizer na hora da minha morte: “Afinal, sempre valeu a pena…”.

 

 

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PIMBA: UMA ESPÉCIE EM EXPANSÃO…

 

Vou-vos falar dum assunto que, pelo seu grau de ridicularidade, pode despertar o interesse de alguns, pelo facto de tal situação ter semelhanças com a sua vida pessoal.

Vou-vos então falar do sábado dos pimbas, mais especificamente do sábado à noite. Se não houver nenhum espectáculo de festas de Verão na vila, esta classe (que inclui várias subclasses) passa sem dúvida o serão em frente da televisão, assistindo aos programas didácticos e educativos que os canais portugueses nos oferecem todos os dias.

A noite começa no Canal 1, com um jogo de futebol do campeonato português. Aí, os pimbas passam os 90 minutos a insultar o árbitro, questionando cada cartão assinalado à sua equipa (mesmo que as imagens não deixem razões para dúvida), as estratégias dos treinadores, afirmando com toda a convicção que as suas estratégias de “treinador de sofá” se revelariam indubitavelmente mais eficazes. Criticam todas as jogadas efectuadas pelos jogadores, o que me leva a supor que o futebol português apresentaria melhores resultados se os “treinadores inexperientes fossem substituídos pela nossa plêiade de “treinadores de sofá”.

Uma fracção dos pimbas aventura-se a ir ver o jogo ao vivo, forma eficaz de libertar tensões acumuladas ao longo duma semana de trabalho. Ao vivo, um jogo de futebol toma contornos completamente diferentes: os insultos entre os adeptos adversários constituem um perfeito dicionário de linguagem vernacular. Também aqui um gesto vale mais do que mil palavras…mas já ne estou a afastar do assunto que me levou a escrever esta dissertação, ou seja, o sábado à noite dos pimbas.

Em casa, reunidos, assistem ao jogo numa perfeita simbiose  com o aparelho televisivo. Quando finalmente acaba o jogo, os pimbas apresentam reacções diferentes consoante o resultado deste: se a equipa da sua preferência ganha, rejubilam de alegria, afirmando que afinal, a prestação do árbitro não teve assim tão mal…Contudo, pode ser observada uma atitude completamente diferente se a sua equipa perde: aí, os pimbas apresentam reacções de tristeza, desespero, continuando a insultar o árbitro, o treinador, os jogadores, a família, enfim, descarregam a raiva em tudo e todos, nunca admitindo que a equipa adversária talvez tenha jogado melhor.

Terminado o jogo de futebol, os pimbas, consoante a sua sub-classe, apresentam reacções completamente diferentes. A sub-classe pimba propriamente dita, muda de canal para a SIC, e assiste a um programa extremamente interessante, onde membros da sua espécie actuam, tentando um destaque entre a classe, e onde são proporcionados vários focos de interesse dos pimbas: raparigas anafadas semi nuas, mexendo-se constantemente, despertando a líbido e a baba entre a generalidade dos pimbas; os tão badalados cantores de música ligeira portuguesa, que apresentam canções em que o grau de complexidade das letras é proporcional ao grau de inteligência de cada membro da classe pimba. Sem falar num apresentador saltitante ridiculamente vestido. Como já devem ter percebido, estou a falar do Big Show SIC…

Contudo, com o evoluir do tempo, desenvolveu-se uma nova subclasse: o pimba pseudo-inteligente. Este, por sua vez, recusa-se a ver o Big Show SIC, alegando ser um programa idiota (e têm razão). Preferem então mudar para a TVI, e ver um jogo do campeonato espanhol, afirmando que é completamente diferente do campeonato português, e lá é que se joga futebol a sério. Aí, olham maravilhados para o aparelho televisivo, e lá passam mais hora e meia a observar uma cambada de tipos a correr atrás duma bola…

Finalmente, no fim do jogo, olham escandalizados para o relógio, e afirmam que já é tarde, pois no dia seguinte, há que vestir o fato de treino, pegar no telemóvel e ir ao centro comercial comprar o jornal desportivo, cuja designação por si própria é irónica, pois este tipo de jornal, refere-se quase exclusivamente a um único desporto, o futebol, deixando uma página ou duas, como que por misericórdia, para os restantes desportos, as denominadas modalidades amadoras.

Assim termina o sábado à noite dos pimbas, depois duma maratona televisiva que envolve futebol, música, alegria, enfim, de tudo um pouco…

Nos dias que correm, torna-se cada vez mais difícil distinguir um pimba, pois estes, devido ao convívio com as pessoas normais, tendem a assimilar os seus costumes. Antigamente, era fácil a identificação pelo tipo de música da sua preferência. Contudo, hoje em dia, essa característica pode revelar-se tendencialmente enganadora. Uma nova estirpe renega esse tipo de música, confundindo-se por isso com a população em geral.

Porém, depois de algum tempo de análise e reflexão, consegui determinar uma característica que é comum a toda esta classe: o gosto exarcebado pelo “desporto rei”, o futebol. Tendo em conta que a monarquia já está extinta à algum tempo, essa característica revela alguns aspectos sobre as reduzidas capacidades dos pimbas.

Enfim, resta-nos a nós tentar perceber os estranhos costumes desta classe de modo a que consigamos viver em harmonia, numa relação de respeito mútuo, sem conflitos. Devemos então evitar as concentrações de pimbas, que ocorrem normalmente ao fim de semana em locais denominados estádios, onde esta classe revela comportamentos violentos e agressivos que podem por em causa a nossa segurança e integridade física  .

 

 

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(Falta de) ESTILO

 

Na sociedade  actual, assistimos a um fenómeno interessante na música: a categorização, ou seja, a englobação segundo critérios definidos (por quem é que eu não sei…), de artistas em determinados “estilos”.

Contudo, essa categorização revela-se limitadora do trabalho dum artista. Por exemplo, um artista que tenha o azar de ser englobado na dita música “pimba”, nunca mais se livra dessa cruz, mesmo que posteriormente faça músicas que se afastem dos critérios definidos à partida para esse estilo.

Perante a camada “pseudo-intelectual” da nossa sociedade, esse artista é um artista menor, que faz música para o povo, essa camada “ignorante, sem vontade e gostos próprios”. Ora gostos não se discutem, e se esses artistas atingem discos de platina, é porque alguém deve gostar…E não nos vamos iludir: para quê fazer discos que ninguém compra? Um artista também precisa de comer, pagar as prestações do carro, pôr os filhos na escola. É perfeitamente legítimo que não se goste, mas agora pôr em questão os gostos dos outros, inferiorizá-los é uma característica de alguém com mentalidade tacanha e limitada.

            Porém, essa mentalidade tacanha e limitada não se restringe à música dita “pimba”. Em muitos outros “estilos” (quem é que os definiu?) de música, verifica-se por parte de certas pessoas, dificuldades en revelar uma abragência. Para certas pessoas é inconcebível gostar ao mesmo tempo de fado e do dito “heavy metal” (nunca entendi este conceito, bem como os outros). Certos “pseudo-iluminados” banem aqueles que tem a ousadia de gostar de bandas, que pela sua diferença ou postura, são consideradas (segundo eles) música inferior, e ouso a afirmar, má.

De facto, essa categorização revela-se não só limitadora do trabalho do artista (“o artista é um bom artista.…”), mas também da maneira de pensar daqueles que ouvem a música feita por este. Devíamos aprender a respeitar os gostos alheios, e ter como base o pensamento de Frank Zappa:"”só há dois estilos de música: a boa e a má”. E o que é bom para nós pode ser mau para outros (e vice-versa).

Até eu afirmar que gosto do Big Show SIC ou do Dragon Ball Z ainda vai um longo ( mas muito longo mesmo) caminho, mas quem sou eu para criticar? Não serei eu que estou errado( Pessoalmente, acho que não…)? Por falar em Big Show SIC: este é considerado um programa pimba. Deve ser pelos artistas que lá vão ( Paulo Gonzo, UHF, Delfins, Alexandra, Maria da Fé)...

A tolerância de gostos facilitará a nossa coexistência, e é essa diferença que poderá contribuir para um mundo mais livre de preconceitos.

 

 

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A (I)MATURIDADE

 

Perante o desejo incessante de mudança que assola a minha mente, inicio mais uma vez uma reflexão de costumes desta sociedade que me rodeia, tentando compreender a mentalidade daqueles que, pelos seus actos, me chamam à atenção.

Vou então meditar sobre a tendência de distanciação que se verifica entre as diversas idades da dita adolescência.

Quantos de nós já não ouvimos (ou mesmo afirmamos) certas pessoas de vinte e poucos anos a chamar de “putos” a indivíduos de dezassete, dezoito anos. Parece que esses poucos anos de diferença lhes confere uma experiência inigualável, algo que jamais poderá ser compreendido por aqueles que devido a terem nascido alguns anos depois, se encontram envoltos na ignorância.

Não nego que uma pessoa de vinte e poucos anos tenha sido testemunha de eventos mais marcantes do que uma pessoa de dezassete, dezoito anos, contudo essa tendência segregacionista é, ouso afirmar, ridícula. São inúmeros aqueles que inibem os seus comportamentos e atitudes, por os considerarem inadequados à sua idade, e assumem uma atitude de pseudo-maturação, julgando os actos dos outros, considerando-os infantis.

A solução passará então por quê? No meu ponto de vista, cada pessoa (independentemente da sua idade) é possuidor duma vivência, de um conjunto de experiências particulares, cujo a partilha e compreensão poderá contribuir para uma sociedade mais justa, mais livre de preconceitos.

Não quero, de modo algum, considerar-me um ser imune a esta situação, e não nego que pensamentos  de tal natureza já passaram pela minha cabeça, prova irrefutável de que me encontro bastante, mas bastante longe da perfeição que tanto tento alcançar.

Espero através desta pequena reflexão, clarificar as minhas ideias (e ideais) e dar mais um pequeno passo nesta minha caminhada interminável em busca da felicidade. Quem sabe, talvez um dia, depois de muito procurar, eu consiga atingir o meu Graal…

 

 

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ABORTO: AS MINHAS RAZÕES AO NÃO

Dum modo geral, as soluções que à primeira vista parecem ser  as mais correctas, nem sempre são as mais eficazes. Um bom exemplo é o caso do tão badalado referendo sobre a legalização do aborto. Agora, passado algum tempo sobre tal questão, decidi fazer umamera reflexão e expor alguns dos meus pontos de vista.

Não negando a existência de condições débeis de prática de aborto actualmente existentes, em que as mulheres arriscam a sua vida, nas ditas parteiras de vão de escada, acho sinceramente que a solução não passa por legalizar algo, que só por si é um acto cruel, tanto para a mulher como para o bebé.

A legalização do aborto não passa duma mera campanha em busca de soluções fáceis, envoltas em demagogia por parte daqueles que procuram o protagonismo a todo o custo. É um pouco como o comunismo: é algo aparentemente perfeito, mas que só resultaria num mundo completamente utópico. Ao inserirmos soluções dessa natureza na nossa sociedade, não é difícil concluir que se encontram completamente desfasadas da realidade. Há que procurar soluções que se encontrem inseridas no contexto em que vivemos, que levem em conta aspectos que, embora possam parecer insignificantes e sem ligação possivel, de facto não o são…Há que levar em conta, por exemplo, a burocracia existente nas instituições do nosso país, que mina todo o seu correcto funcionamento, atrasando todos os processos.

Imaginemos que o sim  no referendo tinha passado: acham que bastava apenas a mulher ir ao hospital, dizer que queria abortar (sem razões aparentemente plausíveis) e que tudo ficaria bem? Se pensam assim, não vivem no mesmo mundo que eu…Essa mulher seria confrontada um monte interminável de impressos, autorizações, justificações e, finalmente, quando estivesse tudo pronto para fazer a interrupção voluntária da gravidez…oops! Lá passaram as 12 semanas…

E acham que uma jovem adolescente de 16 anos que por descuido ou ignorância engravida, receosa daquilo que os pais vão fazer, se vai expor à “mediatização” inevitável dum processo de aborto num hospital? Pura ilusão! Tentará sim fazer as coisas da maneira mais discreta possível, ou seja, continuará a recorrer às ditas parteiras de vão de escada.

O sim na legalização do aborto, além de ser uma licença indiscriminada para matar, era uma medida que se revelaria completamente ineficaz. Aqueles que defendem com tanta honra o sim não passam de meras vítimas duma campanha mediática por parte  de políticos sem escrúpulos, que procuram o mero protagonismo, e que, através de argumentos envoltos em demagogia e duma análise superficial do problema , manipulam a maneira de pensar dos cidadãos.

Não quero, de modo algum que encontrem motivações religiosas na minha maneira de pensar…longe  disso! Pessoalmente, discordo com alguns dos argumentos utilizados pela Igreja Católica para defender o não. Porém, concordo que a vida humana é um bem por demais precioso para ser tratado de forma tão leviana.

No meu ponto de vista, há que tentar encarar o problema por outra vertente: a prevenção. Há que tentar evitar a situação, para que mais tarde não seja necessário corrigi-lo com medidas que se revelam muitas vezes mais prejudiciais que o próprio problema. Há então que investir em campanhas de divulgação dos métodos contraceptivos e  do planeamento familiar, promover aulas de sexualidade nas escolas. No que diz respeito aos métodos contraceptivos, há também que torná-los acessíveis a toda a população, o que passa por vários aspectos, entre os quais a diminuição do seu preço. 

Não sou ingénuo ao ponto de pensar que estas medidas resolveriam todos os problemas…é claro que continuaria a haver mulheres que engravidariam sem o desejar, sem ter condições sócio-económicas para criar um bebé…pelo que era necessário investir também na diminuição da burocracia existente nos processos de adopção, na melhoria das condições de vida das populações.

Assim, um problema, que à primeira vista a solução passaria apenas pela legalização do aborto, apresenta várias vertentes onde essa solução se revelaria completamente ineficaz…e que poria em causa valores tão inalienáveis como a vida humana, criando um critério elitista e discriminatório de quem é digno de viver.

 

 

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O CULTO DA MEDIOCRIDADE

 

Todos os dias, caminhamos em busca de algo, acreditando cegamente na bondade infinita do Homem, que tantas vezes nos dizem que existe, que é real. Contudo, cada vez mais me convenço que essa bondade não passa dum mero descargo de consciência, de modo a minimizar todos os actos cruéis que diariamente praticamos com o mero objectivo da nossa satisfação pessoal.

Primeiro estamos nós, e, depois se não nos prejudicar nem nos der muito trabalho, lá arranjaremos algum tempo para a dita solidariedade, que nos valoriza perante os outros e nos enche o ego. Por exemplo, fica bem andar de fitas brancas em riste por Timor, agora ajudar os mendigos que enchem e que vagueiam pelas nossas cidades, como já não é tão mediático, já não vale o esforço.

De vez em quando lá surgem estas campanhas de solidariedade, em que o principal objectivo, embora pareça ser a ajuda pelo próximo, não o é. Têm como principal objectivo alimentar o nosso ego e limpar a nossa consciência, de modo a nos fazer pensar que somos todos muito bonzinhos e que nos preocupamos com os outros, para que possamos continuar com a nossa vida baseada apenas nos nossos interesses e preocupações.

E eis a nossa sociedade: uma sociedade que se rege por padrões de mediocridade e hipocrisia, visando uma satisfação imediata dos seus instintos mais básicos.

Esta mediocridade reflecte-se  em todas as camadas etárias, e o melhor espelho é sem dúvida a televisão. É um lugar comum afirmar que os canais televisivos só transmitem programas maus, de qualidade duvidosa. Contudo, esses programas vão de encontro com os gostos e exigências da população, pelo que se está a encarar o problema pela vertente errada: não é a televisão que está mal, mas sim a própria sociedade.

E eis alguns exemplos onde está patente a mediocridade da nossa sociedade: 

·  Verifica-se, nas camadas etárias mais jovens uma tentativa de afirmação através do consumo exagerado de álcool e das ditas inofensivas drogas leves, cuja designação não passa dum mero subterfúgio para minimizar e esquecer os efeitos por estas causados. Fala-se, de boca cheia, numa dita legalização redentora, que resolverá todos os problemas, baseada no argumento ilusório que toda a gente consome drogas leves, pelo que é necessário a sua despenalização…

·  É o racismo que cresce todos os dias, por parte daqueles que encontram nas pessoas de raça diferente uma justificação para a sua incompetência e passividade. A diferente cor de pele é encarada como a explicação para o desemprego, para a criminalidade, para o tráfico de droga…enfim, para todos os males da sociedade, esquecendo que é a própria sociedade que conduz as pessoas (independentemente da sua raça) a cometer esses actos. 

·  É o menosprezo  mostrado pelas minorias (sejam elas qual forem) através da discriminação e condenação dos seus actos, criticando e menosprezando todos os gostos e opções que difiram das ditas normais. 

·  É o facismo ideológico que nos é imposto todos os dias por uma igreja autoritária, hipócrita e desfazada da realidade…tudo isto num país supostamente laico. Desde crianças que nos tentam fazer uma lavagem cereberal, vendendo uma imagem de um Deus autoritário, punidor e  castigador. Julgam-se donos da moral e da razão, esquecendo a sua presença por demais evidente nos maiores genocídios da história. 

·  É a camada política envolvida em demagogia, tentando por todos os meios, conquistar os votos dos eleitores. Em altura de eleições vale tudo: desde gozar com a inteligência das pessoas através de campanhas eleitorais ( cujo o único objectivo se resume a tentar ganhar um lugar ao sol) até espezinhar o adversário através de ofensas que muitas vezes ultrapassam o campo político.

·  É a extrapolação da importância do futebol, utilizado muitas vezes como fomentador de ódios entre adeptos, onde muitos não passam de meros arruaceiros, que se refugiam do dito desporto-rei para libertar a sua raiva, disfarçada de fanatismo. 

·  É a crueldade para os animais, manifestada em espectáculos de mera diversão sádica, baseada em argumentos como os costumes e a tradição. Um exemplo por demais evidente é o caso dos ditos touros de morte, em que para a satisfação dum prazer mórbido, são mortos touros em plena arena, para gáudio duma multidão com reminiscências bárbaras. Claro, podem sempre usar o argumento de que o touro sofre muito mais se não for morto na arena. Visto que, de qualquer maneira, as touradas envolvem o sofrimento e a dor do animal, porque não considerar a sua simples e completa abolição? Uma tradição que se baseia na dor e no sofrimento não merece continuar como tal. 

·  A violência doméstica é encarada como algo absolutamente normal, sendo o marido considerado detentor de toda a legitimidade, ao bater e espancar a sua mulher. E a sociedade fecha os olhos, baseada num ditado popular extremamente sexista: “Entre marido e mulher não metas a colher”. A mesma atitude se verifica entre pais e filhos, onde o facto de um pai bater num filho é considerado como um método de educação extremamente pedagógico. 

·  É o encarar como legítimo o uso da violência para punir violência, vulgo justiça popular.  Perante a inoperância do sistema, certos indíviduos, julgam-se detentores da verdade, e tentam fazer justiça pelas próprias mãos, onde muitas vezes as consequências apresentam uma maior gravidade que as causas originais. Por muito mal que o sistema funcione, jamais, em caso algum, se deve abrir um precedente, pois, se tal acontecer, todos teremos a legitimidade para fazer justiça pelas próprias mãos.

São apenas alguns exemplos onde está patente a mediocridade da nossa sociedade. Podia continuar, pois há muitos mais casos característicos dum culto baseado em padrões que nos tornam cada vez menos exigentes, mais inoperantes.

Como o primeiro passo para a redenção é o reconhecimento dos erros, espero, através desta dissertação, tornar-me mais tolerante, aproximando-me cada vez mais duma vida marcada por acontecimentos que sejam dignos de recordar um dia mais tarde.

 

 

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 O JOVEM, A SOCIEDADE E A IGREJA

 

Cada dia que passa, coloco a mim próprio sempre a mesmas questões: o que faço aqui? Qual será o meu destino? E, até hoje tenho chegado sempre à mesma conclusão ( e perdoem-me a redundância) inconclusiva. Ainda não consegui encontrar a causa, o ideal, a pessoa que dê um objectivo à minha vida. Assim, continuo a navegar num mar de dúvidas e incertezas, tentando achar um rumo, que me leve a um porto seguro. Sinto frequentemente que navego contra a corrente....faltam-me muitas vezes as forças para continuar, e tenho a sensação que me vou afogar. Contudo, sempre que isso acontece, eis que algo me puxa para cima, e me deixa a boiar à superfície, impedindo o meu naufrágio no mar das incertezas.

Serve esta breve divagação como introdução a uma dissertação centrada na existência de algo superior, divino que nos guie e oriente, e que nos impede de navegar no mar das incertezas que é a nossa vida. E eis que a minha mente é assolada por conceitos como religião, fé, Deus... 

Não tenho, de modo algum, a intenção (nem a presunção)  de questionar a existência de Deus...mas sim indagar se o facto de acreditar em algo, funciona como um leme, que facilita a nossa navegação? São questões como estas, com que me debato frequentemente, na tentativa de compreender tudo aquilo que me rodeia, enfim a sociedade onde me insiro. 

É por demais evidente que, nos dias que correm, a nossa sociedade é caracterizada por valores e padrões de comportamento completamente diferentes do passado. E, tal como facilmente se constata a existência de novos valores e padrões de comportamento, também não é muito difícil de concluir que os problemas que assolam a nossa sociedade nos dias de hoje são completamente distintos. Sendo o jovem um membro da sociedade, este apresenta problemas característicos e dúvidas resultantes do meio onde se insere.  

Fala-se muitas vezes do afastamento dos jovens ( e da sociedade em geral) dos valores defendidos pela Igreja Católica. Contudo, no meu ponto de vista, o que se verifica é exactamente o contrário. Verifica-se sim  um afastamento da Igreja Católica da realidade em que se inserem os jovens e a sociedade em geral. Tal facto faz com que, quando um jovem procure respostas para os seus problemas na Igreja, seja confrontado com um conjunto de questões e valores que o deixam ainda mais confuso e à deriva, o que consequentemente o leva à procura de respostas noutros valores, valores esses que muitas vezes o levam ao naufrágio. 

Desculpem, mas não consigo deixar de falar na questão do preservativo: quando está mais do que provado que este é actualmente o meio mais eficaz na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, quando todos os dias milhares de pessoas são contagiadas e a Igreja continua a condenar terminantemente o seu uso, algo está mal.... 

Outra coisa que sempre me intrigou também, foi o paradoxo transmitido pela Igreja: o actual representante de São Pedro (pobre e humilde) vive no luxo e na oponência dum local como o Vaticano, rodeado de todos os confortos, distante daqueles que sofrem... 

Assim, se a Igreja quer evitar o afastamento dos jovens e da sociedade em geral, deve descer do seu pedestal, e vir de encontro com as necessidades da nossa sociedade  e abandonar uma mentalidade autoritária e moralista, completamente desfasada da realidade.

 

 

  

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