PREFÁCIO

A poesia de Rui José não é introspectiva, antes, reflecte a consciência colectiva dos tempos que correm. Os medos, as raivas, as revoltas, os amores, enfim, o sentir  que rege a humanidade e faz de nós criaturas amordaçadas tão inconstantes e supreendentes quanto as mudanças de carácter que caracteriza cada virar de página, cada poema, cada história, afinal, contada com a crueza e frontalidade que constitui a sua matéria.

Quem disse que o Rock N’Roll não pode ser versejado, cantado com o simples poder de uma caneta sem outra música que não aquela que nos embala a imaginação quando lemos e nos identificamos com determinado sentimento? A poesia de Rui José é Rock N’Roll na medida em que este é entendido como um movimento universal de expressão de sentimentos, uma manifestação de liberdade ou fome dela, constante revolta contra a cultura institucionalizada e contra a manipulação do sentir humano. É a vontade de ser o que não se é. É o inconformismo contra os limites impostos por mentalidades altruístas e pseudo-iluminadas.

Ao ler-se este conjunto de poemas fica-se com a ideia de que a poesia e o Rock N’Roll se fundem numa mesma essência e objectividade, que, se calhar, nunca deixaram de ser dois membros de uma mesma génese. Certamente que se tornará impossível identificar os limites de cada um, uma vez que as influências do Rock enquanto manifestação musical na obra do autor são por mais evidentes. Rui José assume-o sem complexos, antes com orgulho, referindo-se directamente às personalidades individuais e colectivas a quem vai beber a sua identidade, desde Jim Morrison, Bob Dylan, Jeff Buckley e tantos outros...

Para os mais distraídos, a simplicidade na construção de certos pedaços de mensagem atirados para o papel poderá, parecer à primeira vista, mero minimalismo desprovido de criatividade ou de talento, mas o que é certo é que reside aí, na rudeza de certas palavras, todo o valor deste conjunto de poemas com que o autor procura propir a sua revolução, a revolução das palavras. 

Paulo Silva Santos